CAPÍTULO 04 - O CÁLCULO FRIO
A lua alta iluminava o pátio deserto, as sombras longas estendendo-se pelas paredes. Annchi permanecia imóvel, os olhos fixos no livro, esperando Jiang finalmente chegar.
— Você demorou. — disse, sem desviar o olhar do livro, a voz contendo uma ponta de acusação.
Jiang sorriu, aquele sorriso tranquilo que sempre a irritava e ao mesmo tempo a enfurecia. Ele se aproximou devagar, sem pressa, como se soubesse que cada segundo entre eles era uma batalha silenciosa.
— Me esperando tão ansiosa no meio da noite? — Sua voz era baixa, quase um sussurro carregado de ironia, mas também de curiosidade. Ele estava gostando de provocá-la, de ver até onde podia testar seus limites.
Annchi ignorou-lhe totalmente.
— Onde está Yui? — perguntou, direta. Precisava manter o foco.
— Chun está trazendo ela. — respondeu Jiang com um ar despreocupado, como se a urgência dela fosse apenas uma distração.
Annchi endireitou-se, determinada. Seus olhos brilharam com a desconfiança que sempre guardava quando se tratava de Jiang.
— Eu vou verificar como seu pessoal cuidou dela.
O sorriso dele se alargou um pouco, como se esperasse aquela reação.
Jiang a observava de longe, com os olhos escuros e penetrantes, revelando um misto de ceticismo e curiosidade. Ele havia sempre se perguntado como Annchi conseguia abrir seu coração assim, quase como se tivesse um botão que, uma vez pressionado, liberasse confiança e esperança. — Não entendo como pode confiar tão facilmente nas pessoas — ele disse, sua voz ecoando na quietude da noite.
Annchi ergueu os olhos, e pela primeira vez naquela noite olhou para Jiang. Havia uma fragilidade em sua expressão que logo foi escondida com um sorriso debochado, como se cada palavra de Jiang preferiu naquele momento fosse uma provocação à sua essência — Parece confuso. Eu não confio nas pessoas — respondeu ela, suas palavras carregadas de honestidade crua.
— Como não? Está negociando cegamente comigo, cuidando de uma garota que nunca viu. Isso é coisa que tolos fazem — A incredulidade em sua voz era palpável, e ele se aproximou, como se quisesse medir a profundidade daquela decisão.
A risada de Annchi cortou a tensão como uma lâmina afiada. — Apenas não quero deixar Yui se matar, culpada por algo que não é culpa dela. Pode considerar isso egoísmo de minha parte, afinal eu quero usa-la para meus propósitos. Já você — olhou-o dos pés a cabeça — eu não estou confiando ou negociando cegamente. Eu tenho algo em que acreditar: no seu desespero. Depois que isso acabar, cuidado. Posso começar a conspirar contra você — O tom de brincadeira disfarçava uma verdade sombria, e seus olhos brilhavam com uma luz desafiadora.
Jiang não pôde evitar um sorriso, mas a leveza logo se dissipou, dando lugar a uma seriedade que o envolvia. — Você precisaria de duas vidas para conseguir isso — ele respondeu, sério, toda a brincadeira tinha ido embora, e tom ameaçador permaneceu imutável.
— Será? — Annchi indagou, seu olhar penetrante buscando o dele.
— Ainda estamos nessa fase de desconfiança? Pensei que já estaríamos próximos, afinal você precisa de mim e eu preciso do antídoto — Jiang inclinou a cabeça, os olhos cintilando com uma mistura de diversão e cansaço.
Ela revirou os olhos, mas por dentro, sentia o estômago revirar. Era difícil medir até onde podia confiar nele, e isso a desgastava.
— Desde quando você confia em mim? Ou só está negociando cegamente comigo, por algo que nem se quer sabe se é verdade? Isso é algo que tolos fazem — rebateu, mantendo a voz fria, embora soubesse a resposta. Eles sempre jogavam no campo da incerteza, pisando em terreno instável, afinal era apenas interesses.
Ele assentiu levemente, como se ela tivesse vencido um pequeno ponto naquela discussão silenciosa.
— Tem razão.
Ela fechou os olhos por um momento, tentando afastar o cansaço que começava a pesar em suas pálpebras. Mas havia mais do que isso, uma tensão que ia além da confiança ou desconfiança.
— Além do mais, — continuou Annchi, a voz carregada de determinação. — Preciso dela para lhe convencer a me dar 5 mil Taels.
Houve um leve silêncio, como se as palavras dela ecoassem por entre as sombras. Jiang soltou um suspiro, não de exasperação, mas quase como se estivesse rindo por dentro.
— Ah, nossa relação está tão avançada assim? — Ele inclinou-se um pouco, a voz escorregadia com uma familiaridade perigosa. — Não se preocupe. Eu irei providenciar para você, não lhe faltará nada.
Annchi sentiu a irritação subir como uma chama. Havia algo no tom dele, na forma como parecia sempre ter o controle da situação, que a enfurecia.
— Quem precisa de você providenciando algo para mim?— ela retrucou, erguendo o queixo, tentando manter o domínio da conversa. Mas a verdade era que naquele momento ela precisava dele. Ela odiava isso, e talvez ele soubesse. Talvez fosse por isso que ele não recuava.
Jiang a observou por um longo momento, como se estivesse pesando as palavras dela, tentando ler nas entrelinhas o que ela não dizia. Finalmente, sorriu novamente, um sorriso sem pressa, sem pressões.
— Não está disposta?
O tom dele era suave, mas carregava uma provocação que Annchi não podia ignorar. Ela virou-se para ele, o corpo em alerta, como uma predadora prestes a atacar.
— Se for por falta de donzelas, tenho certeza que as moças solteiras e casadas estariam enfileiradas de uma ponta a outra da cidade para ter um caso com você, não precisa gastar suas energias em uma parte que claramente não está interessada. — Suas palavras foram afiadas, uma tentativa de afastar qualquer insinuação de que ela era uma delas.
Ele soltou uma risada baixa, quase inaudível, mas o bastante para fazê-la sentir que ele estava gostando de cada segundo daquele embate.
— Você considera minha aparência tanto assim? — Jiang murmurou, inclinando a cabeça ligeiramente, os olhos fixos nos dela, como se tentasse penetrar sua armadura.
Annchi sentiu o calor subir por seu corpo, uma mistura de raiva e algo que ela se recusava a nomear. — Você!! —, quase gritou, mas foi interrompida.
— Chegamos, mestre — Chun apareceu na porta, cortando o momento com sua presença serena, trazendo consigo Yui, que parecia frágil, pálida, mas ainda de pé.
Annchi correu até ela, os olhos correndo por cada detalhe do rosto da jovem, procurando qualquer sinal de dor ou sofrimento.
— Você está bem? — sua voz suavizou ao se aproximar de Yui. O que quer que estivesse acontecendo entre ela e Jiang, agora parecia distante. Sua prioridade era Yui.
— Eu que lhe pergunto. Você está bem? — Yui respondeu, com um sorriso fraco, tentando esconder a dor.
— Deixe-me vê-la. — Annchi ordenou, a preocupação evidente. — Tire a roupa.
Yui não hesitou, começou a retirar a roupa, tão rápido quanto lhe foi pedido, sem se importar se tinha outras pessoas na sala.
— Eles cuidaram bem de mim — Yui disse ao ver Annchi analisando cada movimento dela.
Jiang virou-se rapidamente, afastando-se para dar espaço a elas.
— Eu vou esperar do outro lado da tela divisória. — disse, a voz calma, mas firme.
Chun, sempre atento, fez um leve aceno com a cabeça e acrescentou — Estarei esperando do lado de fora. Basta chamar o Mestre Jiang.
Annchi respirou fundo enquanto começava a examinar Yui. Quanto mais observava, mais sentia a raiva pulsando em suas veias enquanto encarava friamente Jiang, que permanecia atrás da divisória de tela. As palavras de Yui ainda ecoavam em sua mente: “Eles cuidaram bem de mim”. Mas o que era “cuidar” se não se esforçarem pelo essencial?
— Faltam médicos no seu pessoal? — A pergunta escapou dos lábios de Annchi.
A resposta de Jiang era quase desdenhosa. — Meu pessoal é médico, não milagreiro.
— Seu pessoal não soube fazer o básico. — ela rebateu, a voz firme — Não é de se assustar, você ainda permanece nessa condição a tanto tempo.
Yui, ainda visivelmente abalada, tentou acalma-la — Eles cuidaram bem de mim, não me tocaram sem pedir permissão — Annchi respirou fundo com a inocência e ingenuidade da garota para alguns assuntos.
— Mas isso era o mínimo — Annchi insistiu, a frustração crescendo. Sabia que precisava agir, precisava mostrar que a compaixão não era uma fraqueza.
— Vamos voltar aos negócios. Como pretende fazer com que eu lhe dê 5 mil Taels de ouro? — Jiang desviou o foco, como se sua vida fosse apenas uma transação.
— Yui, por favor, deite-se naquela mesa — ela ordenou, a voz mais suave agora — Você pode vestir a roupa, mas preciso que deixe a barriga descoberta — Yui obedecia sem questionar.
Próximo
0 Comentários