Prologo: Um fim patético
O céu estava pintado em tons de laranja e rosa, criando um espetáculo que seria, em qualquer outro momento, tranquilizador. Mas naquele dia, havia uma brutalidade latente escondida na beleza da cena. O vento suave trazia consigo uma mistura de aromas – o doce perfume das flores de cerejeira e o metálico, sufocante cheiro de sangue fresco.
O sol, tímido por trás das montanhas, derramava seus últimos raios dourados sobre o cenário destruído, onde a vida havia sido violentamente arrancada. A beleza daquele crepúsculo contrastava de forma brutal com o horror que se desenrolava no chão manchado de sangue.
O cheiro de ferro e carne queimada preenchia o pátio outrora magnífico. Agora havia se tornado um campo de massacre, e os pedidos de socorro já não passavam de ecos sufocados no silêncio sufocante. A quietude era quase ensurdecedora.
E ali, em meio à destruição, de pé sobre os destroços, uma mulher observava o caos com olhos brilhantes, quase em êxtase. Seu nome era N-15 e para ela, aquilo era mais do que uma simples aniquilação, era uma obra-prima, uma visão que a encantava de maneira visceral. O destaque entre a elegância de seu corpo, vestido em um traje negro que delineava suas curvas, e a espada que segurava em sua mão direita, fazia dela uma figura de arrepiar.
— A destruição é tão incrivelmente bela — sussurrou, com um sorriso satisfeito. Sua voz, suave como seda. Aquelas palavras dançavam no vento, ressoando no ambiente como um cântico macabro.
— A nossa chefe é admirável, até mesmo as coisas mais fúteis, viram as mais belas obras de artes em suas mãos — disse N-45, se aproximando cautelosamente, sua voz reverente. Ele era alto, com ombros largos, e se movia como uma sombra, todo vestido de preto, o rosto coberto por uma máscara
— N-45, o que faz aqui? — A pergunta saiu sem emoção, uma formalidade, como se sua presença não fosse nada além de um detalhe.
— Vim participar do plano. Está preocupada, N-15? — Ele lançou um olhar furtivo para a companheira, que permaneceu imóvel.
N-15 hesitou. Seus olhos pareciam fixos na destruição, mas sua mente estava a quilômetros de distância, perdida em pensamentos sobre o que pode sair errado. O silêncio reinou, tenso, até que outra voz se ergueu, grave e ameaçadora.
— Lembro-me quando a chefe matou N-21 por muito menos. Vocês dois, que não conseguem manter a boca fechada, não querem mais suas vidas? — N-12 disse, caminhando com passos firmes. Seus olhos, semicerrados, fuzilavam os dois — Vamos, temos que relatar a chefe.
O grupo seguiu em silêncio, seus corações pesados com a incerteza de estarem à altura das expectativas da chefe. Quando pararam diante de Ernika Marattoi, a tensão no ar tornou-se palpável. Seus corpos se ajoelharam quase de forma automática, como se a presença daquela mulher os forçasse ao chão. Os três assassinos sentiam o peso de sua autoridade como uma lâmina em suas gargantas.
— A sede do grupo AKA foi exterminada, sem sobreviventes! — N-15 anunciou, a voz embargada, tentando se manter firme porém o tremor nas suas mãos traía seu medo.
— Chefe, missão cumprida! — N-45, cabeça baixa em respeito absoluto.
Ela era uma visão imponente sob as flores de cerejeira. Seu cabelo curto, preto, dançava levemente com o vento, enquanto suas pupilas levemente violeta pareciam um abismo impedindo que os outros fossem capazes de manter contato visual. Seus lábios formavam uma linha fina, e seu rosto angelical ocultava a crueldade e a frieza que definia sua reputação, apenas a palavra "deslumbrante" poderia descrevê-la. Não era apenas a mulher mais bonita da cidade; ela era também a mais perigosa.
O silêncio dela era mais opressor do que qualquer palavra. Seus olhos pareciam analisar cada um dos presentes com um desprezo calculado, sua respiração calma como se nada daquilo a afetasse.
Quando ela finalmente falou, sua voz era um sussurro frio, que cortou a alma de todos ali ajoelhados.
— Ninguém verificou os escombros ou espalhou veneno. Como afirmam missão cumprida? — suas sobrancelhas se levantavam altivamente. Ela carregava consigo um ar de arrogância e confiança que mostrava o quanto ela se achava e era melhor do que todos.
A tensão no ar tornou-se quase insuportável. O medo rastejava pelos corpos dos três como uma serpente venenosa. Suas respirações ficaram pesadas, e mesmo sem palavras, sabiam que estavam sob julgamento.
— A equipe dois já relatou quatro limpezas que vocês deixaram escapar. Se cortar o mato e não arrancar as raízes, ele volta a crescer.
Cada palavra era como um golpe, afundando-se nas mentes de N-15, N-45 e N-12. O que antes era uma simples missão havia se transformado em um possível julgamento. Eles sabiam que um único erro seria fatal. A confiança em suas habilidades estava desmoronando sob o olhar implacável de Ernika.
— Vamos, irei pessoalmente com vocês
Eles se levantaram em silêncio, seguindo a líder com passos controlados. O tempo parecia desacelerar, o som de suas botas ecoando pelo pátio destruído. Enquanto caminhavam, o ar parecia mais denso, a tensão mais sufocante. Os três sabiam que a forma como lidariam com os próximos passos definiria se veriam outro nascer do sol — ou se suas vidas se perderiam sob as cerejeiras.
Ernika, líder suprema da Akyut, caminhava com uma confiança inabalável, suas botas negras esmagando o chão como se este lhe devesse reverência. A missão de exterminar o grupo Aka era, para ela, como matar moscas; não exigia sequer sua intervenção direta. Ela confiava plenamente em sua equipe – ou assim pensava.
Mas, assim que passou por N-15, um estalo de dor a paralisou. Seus olhos se arregalaram em choque quando sentiu algo afiado penetrar suas costas. Uma dor lancinante irradiava de sua coluna para o peito. Ela tentou ordenar a seus músculos que se movesse, mas seu corpo se recusava a obedecer.
Ernika cambaleou, sentindo seu corpo vacilar. A lâmina fria a fez arfar, o ar escapando de seus pulmões como um vazamento lento e agonizante. O gosto metálico de sangue preencheu sua boca. A dor em seu peito, era mais fraca do que o sentimento de traição. Suas pernas quase cederam, mas ela se manteve de pé, com os olhos fixos na mulher que a esfaqueou. N-15, uma subordinada que ela havia treinado, nutrido, moldado. O rosto de N-15 era uma máscara de indiferença, mas havia um brilho sádico em seus olhos.
Ela franziu o cenho, enquanto sentia o sangue começar a encher seus pulmões. A respiração se tornava cada vez mais difícil, pesada, como se o ar fosse subitamente denso demais para ser puxado. Suas pernas começaram a tremer, a força que antes lhe era tão natural começava a escorrer como areia entre os dedos.
— N-15, sua maldita... — ela sibilou, a voz áspera e ofegante, enquanto cada palavra lhe exigia um esforço imenso. O peito subia e descia rapidamente, em um desespero silencioso.
— E pensar que até mesmo você foi tola o suficiente para confiar em mim... — N-15 murmurou, um sorriso amargo nos lábios. — Não percebeu que todos na Akyut desejam sua morte? Você é perigosa demais. Mas a verdade é que você nunca mereceu esse lugar.
O rosto impassível de N-15 tornava o momento ainda mais surreal. Havia algo perverso na frieza daquela mulher. Ernika sentiu algo se remexer dentro dela, uma raiva tão antiga e profunda que era quase familiar.
Ela sabia, então, que toda a Akyut estava envolvida. Era uma conspiração que havia crescido às suas costas, e agora, todos eles se voltavam contra ela, ansiosos para remover o obstáculo. A verdade era cruel: eles queriam vê-la morta. Não por poder ou glória, mas por puro medo.
A mulher que controlava a Akyut era uma força incontrolável, capaz de erradicar inimigos com uma precisão aterradora, uma especialista em venenos, armas e combate corporal. Para ela, matar era um segundo instinto, um reflexo moldado desde a infância, quando, aos oito anos, matou o homem que tentou estupra-la, atravessando sua garganta com um pedaço de ferro.
Às dezenove, já havia subido ao topo da hierarquia da Akyut, uma organização repleta de assassinos implacáveis e mercenários sanguinários, mas nem mesmo eles ousavam desafiá-la. Sua reputação de brutalidade e destemor era absoluta. Mas, acima de tudo, Ernika tinha uma regra inquebrável: mesmo no mundo de sangue e contratos, havia um código. Tráfico de crianças, vendas de órgãos e prostituição eram crimes que, em seus olhos, cruzavam a linha entre os negócios e o desprezível. Ela acreditava que até mesmo os assassinos precisavam de dignidade. É, claro, que o conceito de “inocência” para ela era subjetivo, mas sempre havia limites.
Foi por isso que aqueles homens, agora conspirando contra ela, se apressaram em tentar eliminá-la. Eles sabiam que, quando Ernika descobrisse as atividades sórdidas que se desenrolavam por trás de suas costas, não haveria perdão. Todos eles estavam marcados para morrer. Naquele mundo sombrio, ninguém duvidava de sua capacidade de eliminar um traidor em um piscar de olhos. Mas, ironicamente, o golpe veio de dentro.
Ernika poderia até estar à beira da morte, mas o medo nos olhos dos outros dois membros, que observavam de longe, deixava claro: eles ainda temiam sua fúria, mesmo ferida.
Enquanto o sangue encharcava sua camisa, e a dor aumentava a cada segundo, Ernika sentiu uma vontade quase cômica de rir. Aquilo era ridículo. Ela, a assassina número um do mundo, esfaqueada por uma subordinada. Uma piada cruel do destino, que certamente ecoaria pela história do submundo mercenário.
— Então era isso... você sempre quis ser eu! — sibilou com deboche.
O sorriso de N-15, largo e distorcido, não escondia sua ambição. Ernika sabia que aquele momento tinha sido ansiado por sua rival, o desejo de usurpar seu trono. N-15 continuou, a raiva cada vez mais evidente em sua voz: — Eu nunca quis ser você!! Eu sou melhor!! Apenas eu tenho o direito de ser chamada de assassina número 1! Apenas eu posso ser a chefe da Akyut! — A voz de N-15, ecoou pelo espaço, cheia de ódio contido.
A faca, antes uma extensão de sua mão, agora se movia com fúria descontrolada. Uma, duas, dez, trinta... Trinta e nove facadas. O corpo de Ernika absorvia os golpes, mas a alma dela ainda permanecia intacta. A cada corte, um sorriso zombeteiro se ampliava em seus lábios, desafiando N-,15, até que ela falou, entrecortada pela dor, sua voz rouca, mas firme:
— Você nunca... será superior a mim... porque você é... uma mulher... patética! — As palavras eram um veneno próprio, atingindo N-15 onde mais doía. — Sabe por que... a Akyut... concordou com você... sendo nomeada... a líder? Porque... você é muito... fácil de controlar... e... até o fim... N-15... você... é... patética!
Ernika mal tinha forças para respirar, seu corpo já não respondia mais aos seus comandos e encontrava-se ao chão, mas ainda assim conseguia encontrar ar para aquela última provocação. O sorriso arrogante, mesmo com o corpo destroçado, não deixava seu rosto. Cada palavra, ainda que fraca, era um golpe que os presentes na cena não conseguiam evitar. A verdade por trás das palavras de Ernika era amarga. A posição que N-15 desejava tanto era nada mais que um presente envenenado, uma armadilha da qual ela só perceberia depois.
N-15 olhou para baixo, para o corpo mutilado de Ernika, e por um breve momento, seus olhos brilharam com a incerteza. Mas rapidamente sua máscara de frieza voltou.
— A "muito fácil de controlar" matou você — sussurrou, como se tentar reafirmar sua própria força pudesse abafar o som incômodo da verdade. Ela sorriu, triunfante.
Mas então, algo mudou. Uma fina névoa negra começou a se erguer do corpo de Ernika, como uma serpente silenciosa que se enroscava no ar ao redor. O olhar de N-15, antes confiante, foi tomado por surpresa e medo. Ela deu um passo para trás, mas já era tarde demais.
— Sua morte será pior... — disse Ernika, sua voz mal audível, mas carregada de uma certeza mortal. O veneno, o mais cruel e não letal que já havia criado, começava a se espalhar. N-15 e os outros que a cercavam olhavam, incrédulos, para a cena diante deles. Eles sabiam o que aquilo significava.
O veneno de roxo era uma lenda entre os assassinos da Akyut, um gás invisível e silencioso que não poupava ninguém. Não havia antídoto. Não havia escapatória. N-15 sabia disso, e seu sorriso vitorioso começou a desmoronar. O desespero, o medo que ela sempre sentiu por Ernika, finalmente veio à tona.
— Não... — sussurrou, seus olhos arregalados.
O corpo de Ernika, deitado ao chão, era uma armadilha mortal. O veneno se espalhava no ar, invisível, mas devastador. N-15 sentiu o frio percorrer sua espinha enquanto os outros ao redor começavam a tossir, seus corpos já respondendo aos primeiros sinais de envenenamento. A névoa negra, quase imperceptível, envolvia o local, uma sentença de morte para todos ali.
O mundo ao redor parecia desacelerar. O vento suave que trazia as pétalas das cerejeiras para dentro do local continuava seu curso, indiferente ao que acontecia ali. As flores, delicadas e suaves, flutuavam pelo ar.
N-15, sufocando, olhou para o corpo de Ernika, que jazia imóvel no chão, mas com aquele maldito sorriso ainda em seu rosto, aquele era um fim patético para uma assassina dita a número um do mundo.
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