Capítulo 02 - Negligência e Descaso
No meio da madrugada, um horário em que a escuridão intensifica o aspecto sombrio do lugar, mas ainda é possível ver claramente o quão mal cuidada é a dona daquele pátio.
Annchi, sendo a filha da primeira esposa, deveria receber melhor tratamento, mas suas roupas são apenas trapos sujos e desgastados, que podem rasgar a qualquer momento. O tecido fino e esfarrapado mal a protege do frio da noite. Não há nenhum servo por perto para ajudá-la ou prestar qualquer assistência. Ela está completamente sozinha, abandonada à sua própria sorte naquele pátio assombrado, vivendo uma existência marcada pela negligência e descaso.
- Viemos ao pátio, correto? - Jiang questionou assim que verificou o local
- Como pode ver, minha família claramente me trata muito bem - Annchi disse com uma uma frieza que contrasta a evidente negligência do lugar, acostumada com o tratamento que recebe, adentrando mais ainda o pátio escuro jogando em qualquer lugar a bolsa tridimensional que pegou do velho.
- Qual a receita do antídoto? - Seguindo firmemente atrás da garota, focado em conseguir o que desejava.
- Voltamos as negociações? Depois que verificar a Yui lhe dou a receita - desprezando a atitude de Jiang, para ela aquilo não passava de negócios, se ela estava apostando com o futuro dele, para ela não era importante.
- Como posso acreditar que vai cumprir sua palavra?
- Você já tem a Yui, precisa de mais alguma garantia? - a escuridão da noite não permitia que Jiang visse as sobrancelhas franzidas e lábios comprimidos de Annchi, ou ele já teria parado de tocar no assunto.
- Não acredito que ela seja importante para você, mas tudo bem, posso encontrá-la em qualquer local que decida se esconder - o sorriso convencindo pousava suavemente em seus lábios
- Sobre o último termo do nosso acordo, pode colocá-los no Pavilhão Yi no destrinto principal
- Espero que cumpra sua parte do acordo - Jiang desapareceu rapidamente
"Se me lembro corretamente, aquele pavilhão é parte do dote que a mãe dela trouxe, ainda bem que ela não entregou o documento de propriedade, só preciso encontrá-lo amanhã" - Pensou suspirando.
Mesmo morando em um pátio que mais parece uma lixeira, Annchi exibindo sinais visíveis de cansaço emocional e físico, tendo passado por todos os eventos essa noite e sabendo que teria mais amanhã pelo amanhecer. Seus ombros caídos e a postura desleixada, mostrando não se importar muito com sua situação.
Movendo-se lentamente, procurando um canto menos sujo no pátio, ignorando as teias de aranha, a poeira e o cheiro de decadência. Com um suspiro pesado, ela se abaixa e se deita em trapos que pela memória seria a cama da antiga dona do corpo, indiferente ao desconforto do local. Puxando os trapos do velho que agora usa como roupas para se cobrir, ignorando o fedor de sangue que tinha em seu corpo, ela fecha os olhos, tentando encontrar um mínimo de conforto.
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- Mestre porque simplesmente não trouxe ela com o senhor? Aposto que dois dias na prisão do Bambu ela entregaria a receita - Chun estava claramente nervoso ao questionar Jiang, o suor frio brilhava em sua texta
- É mais divertido quando a presa acha que é predador - o sorriso frio de Jiang causou arrepios em seu guarda, ele claramente prefere jogar um jogo psicológico, gostando de ver sua vítima acreditar que tem alguma vantagem
- A garota que eu trouxe foi examinada pela médica, no relatório diz que ela passou por vários abusos, cortes, um aborto, tem hematomas por todo o corpo, um braço quebrado que foi mal curado e o Dartian completamente destruído, tudo indica que ela passou muito tempo naquela pátio
- Investigue a fundo as duas, e leve todos os livros de medicina que tem na mansão para o Pavilhão Yi - revelando seu método meticuloso e a intenção de explorar todas as possibilidades, sem mostrar empatia ou preocupação real pelo sofrimento passado pelas garotas.
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O primeiro vislumbre da luz do sol começa a iluminar lentamente o horizonte, tingindo o céu com suaves tons de laranja e rosa.
A luz do sol iluminava as colunas e vigas de madeira, revelando rachaduras e manchas de mofo. O telhado, coberto de musgo e com várias telhas faltando, deixa entrar raios de sol que dançam no chão empoeirado. As poucas plantas que restam nos vasos de cerâmica estão murchas, com folhas amareladas e caídas.
O ar da manhã é frio e úmido, carregando o cheiro de terra molhada e madeira podre. O silêncio é quase absoluto, quebrado apenas pelo ocasional canto distante de um pássaro ou o som do vento passando pelas estruturas desgastadas. Não há sinais de movimento de servos dentro do pátio exceto por alguns insetos que zumbem ao redor.
No centro do pátio, um velho poço com bordas de pedra gastas está coberto de musgo, suas águas escuras refletindo a luz matinal de maneira opaca. Ao lado, uma velha vassoura de palha descansa contra uma parede, aparentemente esquecida há muito tempo.
Annchi ao acordar, sentiu um frio arrepiante e, ao abrir os olhos, foi confrontada pela dura realidade de como a verdadeira Annchi viveu os últimos anos de sua vida. O pátio ao seu redor estava mergulhado em uma atmosfera de desolação. A luz suave da manhã filtrava-se pelos telhados quebrados e janelas rasgadas, lançando sombras longas e tristes pelo espaço.
No canto do pátio, uma mesa velha e desgastada chamava sua atenção. Sobre ela, vasilhas de comida estavam dispostas de maneira desleixada, como se tivessem sido deixadas às pressas. Eram a janta que os servos tinham trazido para Annchi na noite anterior, antes que ela acordasse naquela casa à beira do penhasco. A comida, agora fria e inapelativa, estava em pratos de cerâmica lascados. Restos de arroz endurecido, pedaços de vegetais murchos e um caldo ralo com uma camada de gordura solidificada.
Annchi aproximou-se da mesa, observando os detalhes. As vasilhas estavam sujas, cobertas por uma fina camada de poeira e algumas moscas zumbiam ao redor. O cheiro azedo do alimento abandonado misturava-se com o odor de madeira podre e terra úmida, tornando o ar pesado e desagradável.
As refeições servidas são de qualidade tão baixa que até mesmo os servos de mais baixa patente se recusaria comer.
- É mais divertido quando a outra parte já está acostumada a vencer, vamos ver qual cenário prepararam especialmente para mim - Annchi disse enquanto caminhava para o poço localizado no centro do pátio, depois de se lavar e procurar algo para vestir que não fosse a roupa de um velho morto, ela encontrou o documento de propriedade.
Sentando-se de pernas cruzadas, decidiu guardar em um local verdadeiramente seguro, começou a meditar e sua consciência entrou seu subespaço.
Logo se viu em frente a um campo medicinal que se estendia diante dos olhos, uma vasta extensão de verde pontilhada por uma miríade de cores e aromas. Uma brisa suave soprava entre as plantas, fazendo-as dançar em uma coreografia silenciosa. O aroma fresco e revigorante das ervas pairava no ar, uma sinfonia de fragrâncias que despertava os sentidos. As ervas medicinais cresciam em fileiras ordenadas, cada planta cuidadosamente cultivada e mantida.
No centro do campo, um pequeno lago espelhava o céu azul acima. Suas águas tranquilas refletiam as nuvens brancas e fofas que flutuavam preguiçosamente, criando um espetáculo sereno e hipnotizante. Seu espaço era como ter um mundo apenas para ela. Se concentrando ainda mais, logo avistou um pequeno pátio de dois andares.
No primeiro andar, o ar estava impregnado com o aroma de ervas medicinais e ingredientes exóticos. As paredes eram forradas com prateleiras de madeira escura, repletas de frascos de vidro, caixas de bambu e potes de cerâmica contendo uma variedade de remédios, venenos e ingredientes medicinais. Rótulos meticulosamente escritos detalhavam o conteúdo de cada frasco. Uma vitrine de vidro exibia agulhas de acupuntura, bisturi e outros instrumentos antigos. A luz suave das lanternas de papel no teto iluminava o espaço, refletindo nas superfícies brilhantes dos utensílios. Mesas de trabalho estavam cobertas de pergaminhos com fórmulas medicinais, balanças antigas, almofarizes e pilões.
Subindo uma escada estreita para o segundo andar, revelava-se um pequeno pátio, um refúgio sereno dentro da farmácia. O piso de pedra lisa tinha um padrão de pedras cinzas e brancas. Um toldo de bambu proporcionava sombra parcial, criando um jogo de luz e sombra. Biombos de madeira entalhada nas laterais adicionaram privacidade e elegância. Próximo à fonte, um banco de madeira convidava ao descanso e à reflexão. Uma pequena cozinha integrada estava equipada com utensílios tradicionais, incluindo um fogão de barro, prateleiras de especiarias e uma bancada de trabalho de madeira polida, com sacos de arroz, feijões e ervas empilhadas ordenadamente.
Um barulho de passos apressados estava cada vez mais alto, indicando que várias pessoas vinham ao seu encontro, quebrando imediatamente sua concentração. O som ecoava pelo pátio. A tensão no ar era palpável, cada passo se aproximando mais e mais, carregando consigo uma sensação de urgência e inevitabilidade.Annchi logo reconheceu as vozes.
- Como assim Annchi sumiu no meio da noite? Eu não acredito que sofreria tamanha humilhação! - A voz alta e furiosa de Xiao Kishi ecoava pelo pátio de Annchi, refletindo sua ira e incredulidade.
- Acalme-se, meu Pai, deve ser um mal-entendido do servo - A voz suave e doce de Xiao Ome tentava apaziguar a situação.
- Alguém vem e abre a porta desse pátio! - A voz autoritária da matriarca Xiao Daif cortou o ar, trazendo um senso de urgência e controle à situação. - Chega de discutir. Precisamos entrar e entender o que aconteceu.
- Mas quem poderia querer fazer isso com ela? Temos inimigos que desconheço? - Xiao Kishi, ainda furioso, buscava desesperadamente por respostas.
- Não sei, Pai. Precisamos reunir todos os servos e começar uma busca imediatamente, mesmo que seja preciso envolver o ministério público - Xiao Ome, com sua voz trêmula mas determinada, mostrava-se ansiosa para resolver o mistério.
- Certo, mas antes quero ouvir de todos o que viram ou ouviram esta noite. Alguém chame os servos agora mesmo - ordenou Xiao Kishi, com uma autoridade inquestionável.
- Quando finalmente decido vir ver a mulher que tem um contrato de casamento comigo, ela está desaparecida? - A voz sarcástica e desdenhosa do jovem mestre Zou ressoou, sua altura e postura esbelta acrescentando uma aura de desprezo. - Ou talvez ela só tenha fugido com outro homem, como uma mulher indigna e sem vergonha.
- Jovem mestre Zou, acredito que seja um engano dos servos. Annchi não faria isso - Xiao Kishi disse, tentando proteger a honra de sua filha, mas na verdade preocupado em salvar sua própria reputação.
Uma risada debochada foi ouvida, era o outro rapaz que acompanhava o Jovem Mestre Zou, aumentando a tensão no ar.
- Não entendo, ninguém entrou no pátio mas já assumiram que a garota não está - O descaso em sua voz era um golpe direto à autoridade de Xiao Kishi, que estava entre a humilhação pública e a incerteza.
- Tem razão, Jovem Mestre Jiang, alguém vem e abre a porta desse pátio! - Xiao Ome ordenou aos servos com um sorriso de satisfação mal disfarçada. No entanto, à medida que o portão se abria, seu sorriso desaparecia, os servos que abriram o portão logo trataram de desaparecer da vista de todos.
Sendo servos a muito tempo, eles sabiam ler o ambiente, se a a senhorita Annchi não estivesse ali eles estariam seguros, mas se ela estivesse e algo desse errado a cabeça deles poderia cair do pescoço apenas por ouvir o que não devia.
No pátio, Annchi estava calmamente sentada, com uma expressão completamente indiferente, causando um choque a todos envolvidos no outro lado do portão.
- O que você está fazendo aqui? - Xiao Ome perguntou automaticamente, sua surpresa misturada com frustração.
- Irmã mais nova, se eu não estivesse aqui, onde estaria? - Annchi respondeu, sua voz carregada de ironia.
- Se você estava aqui, por que não abriu quando o pai chegou? - Xiao Ome tentou inutilmente corrigir seu pequeno erro anterior
- Como assim, irmã mais nova? Por um acaso, quando vão visitar seu pátio, você mesma abre a porta? - o sarcasmo e ironia eram a melhor arma de Annchi.
- O que disse? - Xiao Kishi finalmente se recuperou da surpresa emocional, Xiao Ome aproveitou para se manter calada e pura como uma Flôr de lótus.
- Peço perdão à Matriarca e ao Pai por não ter saído para dar minhas saudações antes. Eu estava esperando meus servos irem abrir a porta. Por favor, sentem-se - Annchi se curvou, com as mãos fechadas em frente ao peito.
A Matriarca Xiao Daif ficou com o rosto vermelho de vergonha ao perceber que, naquele pátio desgastado e abandonado, não havia uma única cadeira.
- Não acredito que você está tratando sua filha assim, Kishi! - A voz da Matriarca estava carregada de indignação, sentindo-se envergonhada diante dos jovens presentes.
- Mãe, creio que deve ter sido um erro de administração de minha esposa, Xiao Ina. Irei corrigir isso assim que voltar - disse Xiao Kishi, tentando manter a compostura, mas com a voz trêmula de raiva. Ele sabia que sua segunda esposa intimidava Annchi, mas, devido ao rancor pela falecida mãe de Annchi, usava sua filha como alvo de sua frustração.
Os dois jovens visitantes observavam a cena com divertimento, desfrutando do drama familiar.
- Parece que o Clã Xiao está com os dias contados, até a filha da primeira esposa tem que abrir a porta do próprio pátio - A voz debochada do Jovem Mestre Jiang foi um golpe direto no orgulho de Xiao Kishi, perante a desorganização do clã.
- Saúdo o Jovem Mestre Jiang. Convidaria humildemente o Jovem Mestre para comer alguns petiscos enquanto aprecia a vista - Annchi, com um sorriso irônico, lançou um olhar desafiador a seu pai.
Afastando-se rapidamente, Annchi foi até a mesa pegar a bandeja com os alimentos que tinham sido servidos no dia anterior. Sua atitude foi tão surpreendente que deixou todos sem reação. Ela voltou com um sorriso simpático no rosto, segurando alimentos claramente duvidosos. Antes que pudesse se aproximar mais, a bandeja em suas mãos foi lançada ao longe.
- Infelizmente, terei que recusar. Sinto que nem animais comeriam tal comida - Jiang não fez questão de poupar as palavras, atingindo diretamente Xiao Kishi, que já tremia de raiva.
Xiao Ome mantinha uma atitude tímida, percebendo que quase revelou-se na frente de jovens tão importantes, tentou resolver a situação.
- Matriarca, isso é claramente obra de algum servo! Precisamos resolver isso imediatamente! Minha mãe e o Pai não trataria a irmã mais velha assim, deve ser algum servo que está enquadrando tudo - Xiao Ome esbravejou, sua voz cheia de vergonha e pena por sua irmã, duas lindas lágrimas desciam por suas bochechas.
- É claro, Xiao Ome. Vamos tomar as devidas providências - A Matriarca respondeu, tentando recuperar a autoridade.
- Annchi, nós resolveremos isso - Kishi ordenou, sua voz rígida, tentando disfarçar a humilhação.
- Sim, Pai - Annchi respondeu com um sorriso sereno, sabendo que havia exposto a verdadeira natureza de seu pai e de sua madrasta.
Os jovens visitantes, ainda com sorrisos divertidos, observavam enquanto o Clã Xiao tentava juntar os pedaços de sua dignidade quebrada.
- Percebi que não cumprimentou seu noivo. Está demonstrando o desejo de cancelar o contrato de casamento? - Jovem Mestre Zou disse de maneira arrogante, cruzando os braços e lançando um olhar desdenhoso para Annchi.
Annchi notou o sorriso de esperança no rosto de Xiao Ome e rapidamente entendeu o plano arquitetado por sua irmã. Se Annchi fosse desacreditada ou desaparecesse, Xiao Ome, como a segunda filha da segunda esposa, herdaria o casamento com o clã Zou.
- Jovem Mestre Zou, não achei que queria minhas saudações. Pensei que apenas mulheres sem vergonha e indignas seriam de sua preferência, como não faço sua preferência não o cumprimentei - Annchi respondeu com um sorriso calmo, mas seu tom carregava uma ponta de veneno.
A menção às palavras de Annchi fez o rosto de Zou enrubescer de raiva e embaraço.
- Como ousa falar comigo dessa forma? - Zou disparou, tentando manter a compostura, mas claramente abalado.
- Annchi, como pode falar assim com o Jovem Mestre Zou? - A Matriarca Xiao Daif perguntou, a voz carregada de choque e preocupação ao olhar para Annchi, sentindo a tensão no ar aumentar.
- Matriarca, foi apenas uma observação - Annchi disse com serenidade, sem recuar diante da fúria de Zou.
Xiao Kishi, tremendo de raiva, tentou intervir: - Annchi, peça desculpas ao Jovem Mestre Zou agora!
- Não vejo razão, Pai - Annchi respondeu, sua voz firme e resoluta, olhando diretamente para seu pai, que agora estava visivelmente desconfortável.
Xiao Ome, percebendo que apareceu a chance de prejudicar ainda mais Annchi, tentou intervir com um sorriso forçado: - Irmã mais velha, por que não pede desculpas ao Jovem Mestre Zou? Isso está claramente manchando a dignidade dele.
- Claro, irmã mais nova, lembro-me claramente de como defendeu minha dignidade perante as palavras do Jovem Mestre Zou - Annchi retrucou, mantendo o tom sarcástico, fazendo a mesma se calasse envergonhada
Se o que Annchi disse feria a dignidade do Jovem Mestre Zou, imagina o que aconteceria com a reputação de uma Jovem senhorita.
- Isso é um ultraje! - Zou explodiu, a frustração evidente em seu rosto. - Não tolerarei ser humilhado dessa forma!
Jiang, observando o desenrolar dos acontecimentos, não conseguiu esconder sua expressão de divertimento e curiosidade.
- Parece que a senhorita do Clã Xiao foi ofendida pelas palavras do Jovem Mestre Zou anteriormente - murmurou o Jovem Mestre Jiang.
A atmosfera estava carregada de tensão, cada palavra e gesto contribuindo para a crescente animosidade. Annchi, apesar das circunstâncias adversas, mantinha-se firme, sabendo que cada passo que dava era um tapa no rosto de alguém, se ela não conseguisse acabar com um pequeno grupo de insetos como esse, ela não teria nenhum direito de dizer que era a assassina mais temível do mundo.
- Annchi, desculpe-se com o Jovem Mestre Zou imediatamente! - Xiao Kishi ordenou, tentando recuperar alguma autoridade diante do caos.
- Sim, Pai - Annchi respondeu, com um brilho de determinação nos olhos, deixando claro que não seria facilmente subjugada.
- Peço perdão ao Jovem Mestre Zou por minhas palavras anteriormente. Percebi que fiquei muito emotiva. A verdade é que o jovem mestre gosta de falar com mulheres sem vergonha e indignas... - Annchi começou, mas foi interrompida por Xiao Kishi.
- Annchi, o que está falando? Jovem Mestre Zou, peço perdão em nome do Clã Xiao - Xiao Kishi interveio, tentando desesperadamente controlar a situação.
- Talvez encontre o que procura na Corte do Luar - Annchi completou, a voz carregada de sarcasmo.
Tendo o nome tão sofisticado como Corte do Luar, o local era apenas uma casa de prazes que a maioria dos jovens iriam.
- Annchi! - Xiao Ome exclamou, a voz cheia de nervosismo ao perceber que a situação estava fugindo do controle Jovem Mestre Zou iria cancelar o casamento com o clã Xiao e o que seria dela?
- Você vai se arrepender de ter falado isso. Claramente, eu me casar com você é como um cisne casar com um sapo! - Zou gritou, sua voz tremendo de raiva e humilhação, antes de se virar para ir embora, sendo acompanhado por Jiang que ria abertamente.
- Ah, mas o sapo prefere que o cisne tenha a companhia de outros cisnes na Corte do Luar - Annchi murmurou, sua voz maliciosa ainda audível para os presentes.
Zou parou por um momento, visivelmente furioso, mas decidiu não responder, saindo rapidamente com um semblante de ultraje.
- Annchi, você passou dos limites! - Xiao Kishi explodiu, seu rosto vermelho de raiva. - Como ousa envergonhar nossa família dessa maneira?
- Pai, apenas disse a verdade. Se o Jovem Mestre Zou se ofendeu, talvez deva pensar antes de humilhar nosso clã - Annchi respondeu, sua voz calma mas cheia de desafio.
- Isso é inaceitável! - A Matriarca Xiao Daif exclamou. - Como pode falar uma coisa dessas?
- As palavras do Jovem Mestre Zou têm um peso enorme. Para ele humilhar nosso clã, dizendo que a filha da primeira esposa é uma desavergonhada que foge com homens no meio da noite, acredito que a Matriarca e o Pai não devem ter ouvido isso ou não deixariam esse insulto ao clã passar - Annchi disse convicta.
- Irmã mais velha, você não foi muito cruel? - Xiao Ome tentou intervir, a voz tremendo de frustração.
- Eu estava apenas protegendo nosso clã - Annchi respondeu firmemente.
- Pensando bem, o que o Jovem Mestre Zou disse poderia manchar a reputação do nosso Clã - Xiao Kishi admitiu relutantemente, a tensão ainda evidente em sua voz.
- Você agiu bem, Annchi - A Matriarca falou depois de pensar um pouco, sua voz cheia de aceitação, mas com um olhar calculista.
- Irmã mais velha, terei que me retirar - Xiao Ome disse, frustrada, escondendo a raiva por não ver Annchi sendo castigada. Seu rosto estava pálido e seus olhos brilhavam de ressentimento.
- Não se preocupe, Annchi. Mandei alguém informar ao Clã Zou sobre as atitudes do jovem mestre deles, e exigirei um pedido de desculpas em seu nome - A Matriarca falou com firmeza, tentando restaurar a honra do clã.
Annchi manteve sua expressão serena: - Agradeço, Matriarca.
Xiao Kishi, ainda lutando para manter a compostura, respirou fundo antes de falar: - Annchi, prepare-se para mudar de pátio. Irei mandá-la para um pátio digno da primeira filha.
Annchi assentiu: - Sim, Pai. Agradeço por isso.
Xiao Ome, ouvindo as palavras de seu pai, apertou os punhos, tentando disfarçar a frustração crescente. - Irmã mais velha, espero que aproveite seu novo pátio - disse com um sorriso forçado antes de se retirar rapidamente, incapaz de suportar mais aquele cenário.
- Ah, Pai, queria falar com o servo que disse que eu tinha sido sequestrada. Preciso puni-lo por tamanha calúnia - Annchi disse, sua voz suave, mas carregada de uma firme determinação.
Enquanto Xiao Ome se afastava, escutou Annchi falando isso e uma nova preocupação surgiu em seu coração. O "servo" que Annchi mencionava era, na verdade, ela mesma, a responsável por espalhar o boato para seu pai.
- Não se preocupe, Annchi. Eu mesmo punirei o responsável pela difamação - Xiao Kishi respondeu, tentando manter o controle da situação.
- Iremos puni-lo por difamar o clã - a Matriarca acrescentou, seu tom severo e autoritário.
Annchi curvou-se respeitosamente: - Obrigada, Pai e Matriarca.
Xiao Kishi observou sua filha mais velha com um olhar duro, mas resignado: - Annchi, espero que compreenda a gravidade da situação. Não podemos permitir mais desonra ao nosso nome.
- Compreendo, Pai - Annchi respondeu, mantendo a postura digna. - Farei o que for necessário para proteger nosso clã.
A Matriarca, vendo a interação entre pai e filha, sentiu um peso de alívio, talvez aquela jovem não queria trazer vergonha a ela, apenas por ter sido empurrada até aquelas condições que ela resolveu revidar, afinal até um rato morderia se tivesse encurralado: - Annchi, sua avó cuidará melhor de você no futuro.
- Obrigada, Matriarca - Annchi respondeu, inclinando-se respeitosamente, mas deixando evidente a distância entre as duas. Não era um relacionamento entre avó e neta, mas entre uma matriarca e uma subordinada.
Com isso, a reunião matinal tensa chegou ao fim, mas Annchi sabia que as batalhas internas e externas estavam apenas começando. O sorriso venenoso em seus lábios mostrava que ela estava pronta para enfrentar qualquer desafio que surgisse.
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Xiao Ome andava acompanhada de seus servos até chegar no pátio de sua mãe, Xiao Ina. Ao vê-la, jogou-se nos braços dela, lágrimas de frustração e raiva escorrendo pelo rosto.
Os servos logo compreenderam que deviam deixar as duas sozinhas, saíram rapidamente.
- Mãe, aquela maldita Annchi ainda está viva. Tenho certeza de que paguei aquele velho para dar um fim nela! - Xiao Ome exclamou, sua voz tremendo de ódio.
Xiao Ina acariciou os cabelos da filha, tentando acalmá-la: - Minha filha, não se preocupe. Podemos sempre acabar com ela de outra forma.
- Ela me humilhou na frente do Jovem Mestre Zou e do Jovem Mestre Jiang! - A voz de Xiao Ome era um misto de vergonha e raiva, os olhos brilhando de indignação.
- Não se preocupe. Podemos transformar a vida dela no mais puro inferno - Xiao Ina respondeu, seu tom frio e calculista, com um brilho maligno nos olhos.
- Ela foi grossa com o Jovem Mestre Zou, e agora ele quer cancelar o contrato de casamento com o clã! - A voz de Xiao Ome subiu de tom, a preocupação evidente em cada palavra.
Xiao Ina franziu o cenho, pensativa: - Filha, não é bom que ela não consiga se casar?
- Mas mãe, eu preciso daquele casamento. Eu já me entreguei para o Jovem Mestre Zou - Xiao Ome admitiu, a vergonha tingindo suas palavras.
Xiao Ina suspirou, um misto de desaprovação e compreensão em seu rosto: - Minha filha, não se preocupe. Tenho um jeito de fazer Annchi aceitar o cancelamento para que ele possa se casar com você.
- Certo, mãe. Ele disse que se casaria comigo - Xiao Ome disse, tentando se convencer.
- Ele disse que se casava com você? - A dúvida na voz de Xiao Ina era evidente.
- Mãe, não precisa se preocupar. Ele me ama muito e eu o amo. Assim que ela cancelar, ele disse que se casaria comigo - Xiao Ome respondeu, sua voz cheia de esperança.
Xiao Ina olhou para a filha com uma mistura de amor e preocupação: - Minha filha, não devia ter se entregado. Tenho mais experiência. Não devia confiar cegamente em um homem.
- Mãe, estou certa de que ele é diferente - Xiao Ome insistiu, sua voz firme, embora houvesse um leve tremor de incerteza.
- Se você diz... - Xiao Ina murmurou, resignada.
Xiao Ome, ainda com raiva, continuou: - Mas quero que aquela maldita da Annchi sofra.
Xiao Ina sorriu, um sorriso frio e calculista: - Ela vai sofrer. Se não fosse a mãe dela, eu seria oficialmente a primeira esposa e não teria esse título de segunda esposa, que mais parece uma concubina.
- Vamos fazer com que Annchi pague por tudo - Xiao Ome disse, sua voz carregada de ódio e determinação.
- Sim, minha filha. Ela pagará caro. Prometo a você - Xiao Ina respondeu, abraçando a filha com um olhar de pura malícia.
Em um pátio mais distante Annchi encontrava-se descansada alheia a qualquer sentimento de ódio.
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Annchi encontrava-se no novo pátio, um ambiente que refletia sua posição como filha da primeira esposa. O local era decorado com elegância e luxo, com jardins bem cuidados e uma estrutura imponente. Ela estava acompanhada por duas servas jovens e bonitas, que aguardavam suas ordens.
- Só tenho três regras: me obedeçam sem questionar; nunca entrem no meu quarto sem serem chamadas; e se alguém me procurar, digam que não estou aqui - Annchi disse com uma voz autoritária, olhando diretamente para as servas para garantir que entenderam.
- Sim, Senhorita Annchi - as servas responderam em uníssono, inclinando-se em respeito.
- Agora estou com fome e preciso de um banho - Annchi ordenou.
As servas assistiram rapidamente, prontas para cumprir as ordens de sua nova senhorita.
O ambiente ao redor era tranquilo, com o som suave da água de uma fonte próxima e o perfume das flores exóticas que enchiam os jardins. O sol da tarde refletia nas paredes brancas do pátio.
Annchi tomava banho sozinha em seus novos aposentos, desfrutando do luxo que a antiga dona deveria ter aproveitado. Enquanto estava imersa em seus pensamentos, um barulho repentinamente chamou sua atenção. Um adaga foi entalhado na madeira, com um bilhete preso ao cabo. Ela pegou o bilhete, desdobrando-o para ler as palavras ali escritas: "Me encontre hoje à noite no Pavilhão Yi".
- Jiang
Ela sussurrou o nome dele, seu tom de voz carregado de desdém enquanto olhava para a adaga com um sorriso de canto de boca. Annchi sabia que Jiang não desistiria até conseguir o antídoto para o veneno que a ameaçava. E se ele estava fazendo um pedido tão desesperado para ser extorquido, ela faria questão de pegar até o último centavo.
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